a melhor forma de se testar a leitura de um pequeno aprendiz é utilizando um livro sem desenhos que não induza a junção das letras à palavra certa. estou a falar daqueles aprendizes mesmo pequenos, que ainda só lêem coisas como «a amélia dá a lata ao macaco»... e outras espécies de frases com muito pouco sentido. a falta de livros adequados a estes aprendizes é imensa, o que me limita quase exclusivamente ao livro de leitura, que fica sempre na sala por causa do peso e de todos os malefícios que o transporte do mesmo provocaria nas costas da minha m minúscula. (com a histeria da gripe da primeira letra instalada nem sei como é que ainda se lembram de coisas como o peso das mochilas. sim, eu faço parte do grupo dos subestimadores da coisa, mas como o assunto é delicadíssimo não vou chegar a falar dele. e isto não foi um tentativa de coisa nenhuma, foi só um comentário entre parênteses.) a melhor, e única, alternativa é seleccionar palavras de livros com frases simples e aventurar-me na descoberta de uma palavra que tenha as letras e ditongos que a m já aprendeu. tarefa difícil, como certamente se perceberá, porque quase todos os dias tenho uma nova letra ou um novo ditongo para acrescentar à lista. frequentemente, me esqueço e aponto palavras que até nem começam mal mas que acabam quase sempre com a M maiúscula a rebolar a rir. - pin-gu-..., começa bem... - pingo-doce, acaba ainda melhor... faltou-lhe o desenho que tornava a palavra óbvia...
a imagem do meu pai a estudar matemática com a minha irmã, sempre mais irritado do que me parecia razoável, é uma imagem agarrada à minha memória que recentemente se avivou. percebo-lhe (agora) a dificuldade em manter a calma, o desgaste e a frustração por não conseguir ensinar à primeira e agradeço-lhe essa imagem porque a sua existênca me faz ter consciência da probabilidade de colar igual recordação na memória do meu par de Mm. ando há alguns dias a matutar na melhor forma de estudar com elas, na melhor forma de fazer daqueles momentos recordações «sem adjectivo», e ando exausta com a minha incapacidade para encontrar uma solução que desejava imediata e mais exausta com a visão de mim própria nesses momentos de estudo. hoje, vi um nesga de céu azul quando me lembrei dos meus alunos de francês de 1.º ciclo, e dos meus alunos de matemática de 2.º ciclo, e dos meus alunos de ciências físico-químicas de 3.º ciclo, e dos meus explicandos de qualquer destes ciclos e de qualquer destas disciplinas e, ainda, dos meus explicandos de análise matemática I e II e de química orgânica... e, depois, vi o sol quando me lembrei de como gostava de ensinar, de explicar, de voltar a explicar e de repetir tudo outra vez... e, a seguir, o sol, aqueceu-me quando me lembrei do jogo dos post-its com mnemónicas e bonecos que divertiam os mais novos e facilitavam imenso o trabalho conjunto que fazíamos. e agora vou andando, porque tenho novas técnicas de estudo para implementar e novas memórias para colar. memórias daquelas que não caem quando a curva do esquecimento entra em queda.
hoje, quando me encontrar com a aventesma que faz a gestão do condomínio onde se insere o maravilhoso duplex com vista desafogada para a serra e para o mar, no último andar de um prédio piroso cor-de-rosa foleiro (o que só me alimenta o ego pelo que consegui fazer com o maravilhoso duplex onde a modéstia não entra... e a isto chama-se terapia!), que estou a pagar a um banco verde, em troca de enormes prestações mensais, e que parece uma esponja a absorver toda a água que lhe chega, vinda das zonas comuns que a aventesma mencionada na primeira linha ainda não percebeu que têm te ser sujeitas a manutenção, mesmo não tendo um papelinho com a data de caducidade da anterior manutenção (como nos elevadores, estão a perceber?!)... ora dizia eu... hoje, quando aparecer de surpresa ao encontro que a aventesma marcou com o empreiteiro, que é mais meu amigo do que dela e que me telefona a avisar destas coisas, para verificarem a água que está a entrar pelo telhado e que se acumula numa poça com um metro e meio de diâmetro, e que está ser absorvida pelo tecto do maravilhoso duplex blablablá, vou fazer-lhe uma saudação romana à bruta directa ao olho directo.
EDIT (1h depois): tenho de comprar pastilhas para a garganta. não consegui livrar-me de uma missão que coincidiu no tempo com a visita da aventesma.
Este é o Manolo que desenha todos os sapatos que têm a sua assinatura, sem a ajuda de assistentes. Este é o Manolo que faz o primeiro salto de cada sapato novo à mão, antes de começar a reproduzi-los. Este é o Manolo que popularizou o salto stiletto, fundindo a aerodinâmica e a estética. Não tem mesmo ar de Manolo?